segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O VALE DOS IRMÃOS

No Vale dos Irmãos, cada um tem uma função específica.
*Ranzizaf* é quem protege a manada, quem aconselha e quem se mantém de longe deixando que cada um tome o seu caminho em segurança. É também aquele que não abre mão de um conselho. É conselho daqui, conselho de lá, conselho pra todo lado, sem que nem ao menos lhe tenham pedido. Organiza o grupo com punhos de ferro e faz com que todos funcionem conforme suas regras.
*Fofocaf* é sua fiel escudeira. É ela quem administra os problemas de *Ranzinzaf* para que ele possa se dedicar a cuidar dos outros. Costuma cuidar também da saúde física do chefe. *Fofocaf* sabe da vida de todo mundo e *Ranzinzaf* lhe é grato por isso. Ela o mantém atualizado quando alguma coisa foge do lugar.
*Invasif* é o cuidador mental de *Ranzinzaf*. Ele é o responsável por promover a saúde mental e a serenidade de *Ranzinzaf*. Mantém-no atualizado com o mundo, para além dos conselhos de *Fofocaf* que apenas lhe diz dos fenômenos internos. *Invasif* também faz as vias de promover a organização da manada, na ausência de *Ranzinzaf*.
Tem-se ainda *Deprimif*, *Agitaf* e *Coitadof*, os *irmãos fiéis*. *Invasif* não cansa de atormentá-los e faz de tudo para que eles progridam na vida como ele. Deseja que os *irmãos fiéis* sejam um dia tão grandes quanto ele, fruto do trabalho e da união do grupo, sem reclamações.
Dos três *irmãos*, *Deprimif* é o que mais reclama e o que menos age. Reclama de tudo e encontra força pra fazer algo diferente apenas quando se compara a *Invasif*.
*Coitadof* é também quem reclama, mas o faz diferente de *Deprimif*. *Coitadof* culpa sempre as circunstâncias: "Não me é possível caminhar pra frente, porque há sempre pedras pelo caminho... Oh, situação conflituosa! Terei que recorrer aos experientes para me ajudar".
Já *Agitaf* afunda em seu próprio desespero. Quer alcançar o posto de *Invasif* e luta por isso, mas sabe que ainda não se encontra preparado. Precisa passar por outras provas no Vale, que *Invasif* também teve que percorrer. Para isso, *Agitaf* conta com o apoio de sua mais nova escolhida e incentivadora.
No Vale há também aqueles que vigiam a estrutura de longe, por cima das torres e que não são menos importantes na história. Trata-se de *Fugitif* que prefere proteger o Vale do seu jeito, sem qualquer interferência ou opinião; e *Professof*, o mais organizado e articulado de todo o Vale, principal postulante a substituir *Invasif*. *Professof* é, inclusive, o mais próximo de *Invasif*, com quem mantém comunicação aberta e franca. Chegam a se estranhar muitas vezes, mas não deixam de colocar suas rabiscadas considerações.
*Fugitif* não é como os outros. Prefere se manter distante, embora seja fiel e participativo. Não se mete quando as coisas descambam para a confusão e é conhecido por seus toques sarcásticos.
O Vale dos Irmãos mantém-se sereno e organizado, em que cada um, na sua convicta função, exerce  seu cargo com maestria. Em nada se distinguem de outras organizações ou sociedades, apenas no quesito fidelidade. Uma coisa que não se pode cobrar dos habitantes do Vale é que não são fiéis uns aos outros. Sempre que um encontra-se na partilha de uma guerra, ou mesmo na eminência de tal, o exército dos irmãos intervém imediatamente. Isso, às vezes, causa espanto e admiração do líder da manada - *Ranzinzaf* - que teme que algum dia toda essa estrutura sólida e concreta chegue a ruir com a traição de um deles. Para *Ranzinzaf*, uma coluna pode tombar ou apenas balançar a qualquer momento e se isso acontecer todo o Vale irá caminhar em trevas para sempre.
*Professof* é o mais coerente de todos e, como tal, discorda do chefe: "Se uma telha que seja vier a oscilar, outra será colocada em seu posto imediatamente!".
*Fugitif* compartilha da mesma opinião de *Professof*, mas não é capaz de prever o futuro com tamanha veemência.
É comum em muitos casos que as discussões no Vale adquiram aspecto de verdadeira rudeza e incongruência de pensamentos. Os *irmãos fiéis* são os que mais se mantém em cima do muro nessas horas, pois receiam se comprometerem com alguém. Mesmo assim, *Agitaf* faz questão de se destacar entre eles, ainda que não lhe seja possível discernir das opiniões com muita coerência.
E assim a vida no Vale dos Irmãos segue de vento em popa. Cada um tendo para si seu destino, acreditando nele e defendendo-o, mesmo que o desfecho não seja nada razoável. As funções são delegadas e exercidas com vigor, e a harmonia ronda o Vale com sua estrutura perplexa e familiar.

***

Certa feita, quando na ocasião de uma tarefa a ser cumprida no Vale por *Coitadof*, um fato causou espanto. *Coitadof* fôra convocado a conduzir um plano para além de suas habilidades e precisou contar com o apoio dos *irmãos fiéis*. Acontece que *Coitadof* enfrentava problemas com os *irmãos* por se manter mais distante e não se abrir tanto, preferindo a escuridão e o isolamento. Os *irmãos*, indignados com essa postura, preferiam manter-se em segredo e esperar até que *Coitadof * os acessasse. Mas é claro que tudo aquilo não passaria despercebido e por mais impressionante que fosse, apareceria no momento menos imaginável possível. E foi o que aconteceu!
O prazo de *Coitadof *era curto e ele foi correndo apresentar seu novo projeto aos *irmãos fiéis*. Precisava urgentemente de auxílio.
Chegando lá, e com toda expectativa decorrida dos últimos acontecimentos, encontrou os *irmãos* determinados a lhe escutar.
  - O que te faz nos procurar tão tarde da noite, *Coitadof*? E porque está tão nervoso? - perguntou *Invasif* que estava com os *irmãos*.
  - Preciso produzir um documento que é tão importante, importantíssimo pra ser mais exato, mas que pode causar impactos de imensa proporção ao Vale dos Irmãos - destacou apavorado.
  - E do que se trata o documento? - indagou *Agitaf*.
  - Trata-se da nossa estrutura e de como a comunidade se apresenta aos outros, como nós entendemos nossa relação com o mundo e com os outros.
  - E quem te ordenou a tarefa? - *Deprimif* demonstrava seu interesse.
  - O próprio *Ranzinzaf* em pessoa!!!
  - Se é assim, então faça! Se ele ordenou... - disse *Invasif*.
  - O problema é que não sei se estou disposto a discordar do documento, mas creio que serei eu considerado o culpado desse mal entendido! Não discordo das cláusulas, que colocam os outros, os que pensam diferente de nós, como inimigos; mas entendo a maldição que pode cair sobre o Vale. Trata-se de uma tarefa que não tenho capacidade de exercer sozinho, principalmente porque serei eu o mentor maligno!
  - Então se é isso, coloque-se contrário às ordens de *Ranzinzaf* e diga a ele que encaminhe a outro - respondeu *Invasif*.
  - Não posso fazer isso, não mesmo! Se o fizer não serei eu a ser o próximo postulante a um cargo superior. E o problema maior é que concordo, embora em partes. Não quero me comprometer. Tentarei outra maneira. Pelo visto não podem me ajudar...
E abatido, *Coitadof* decidiu procurar quem lhe fosse mais complasivo com a situação.
*Coitadof* desejava, na verdade, que alguém pudesse fazer o trabalho por ele ou ao menos se colocasse responsável, tanto quanto ele, na assinatura do documento. Essa era, aliás, uma de suas principais características: a partilha do insucesso!
Na calada da noite do dia seguinte, *Coitadof*, já retirado em seus domínios, recebeu a visita de *Deprimif* e *Agitaf*:
  - Colocamos *Fugitif* a par de seu assunto inescrupuloso, mas ele se negou a participar. Não por uma questão de integridade, é bom que se diga, mas por entender que não há afinidade entre "bestiais", que somos nós, e sua habilidade intelectual superior. Assim, preferimos vir até você e sem o consentimento de *Invasif*, já que ele parece disposto a deixá-lo na angústia. O que nos propõe, para ajudá-lo? - acrescentou *Deprimif*.
  - Quero apenas uma ajuda para produzir o documento, como disse, mas não quero envolve-los a ponto de deixá-los em situação ruim.
  - Estamos com você, *Coitadof*. Mas nao concordo com essa iniciativa. Acho que estamos colocando *Invasif* fora do assunto e devemos manter o laço dos *irmãos* em harmonia - desconsiderou *Agitaf*.
  - Não devemos satisfação a *Invasif*!!! - disse *Deprimif* nervoso - E além do mais, ele não anda coerente com nossas idéias. Temos que nos unir a *Coitadof*. Poderíamos tentar *Fugitif* mais uma vez, mas não serei eu a convidar.
  - Vocês já tentaram *Professof*? - perguntou *Coitadof*.
  - Não! *Professof* é muito justo com essas coisas. Se ele desconfiar que isso possa levar a relação da comunidade a outro patamar, não participará conosco - disse *Agitaf* - E assim como ele, confesso que tenho medo de que isso seja uma traição.
  - Isso o que??? - *Coitadof* se espantou.
  - Produzir o documento sem colocarmos todos a par. Vocês estão excluindo *Invasif*, que sempre esteve do lado de vocês! - enfatizou *Agitaf* com uma certeza de quem não queria mais participar do imbróglio.
  - Se quiser ir embora, a hora é essa! Mas eu ficarei com *Coitadof* - disse *Deprimif*.
E *Agitaf* partiu sem nem ao menos olhar pra trás. Decidiu que contaria tudo a *Invasif*, mas de modo secreto e visando a continuidade dos preceitos dos *irmãos fiéis*. Entendia que o que estava em jogo era muito mais que o tratamento dos outros. Tratava-se dos princípios da fidelidade: "*Ranzinzaf* não daria a *Coitadof * a missão de destruir a relação com os outros. Acho que isso soa mais como um teste do que propriamente a produção de um documento" - pensou *Agitaf* enquanto caminhava ao encontro de *Invasif*.
Tempos depois, *Coitadof * e *Deprimif* foram mostrar orgulhosos o documento pronto para *Ranzinzaf*. *Ranzinzaf* estranhou a presença de *Deprimif* com *Coitadof*, pois apenas a este último foi entregue a tarefa. Mesmo assim relevou. Aquilo que estava feito, estava feito, e pelas mãos de quem quer que fosse.
O documento tratava de diminuir a proximidade e a intensidade da relação dos *irmãos fiéis*. Ou seja, a partir dali, os *irmãos* não mais poderiam tecer considerações uns aos outros de questões pessoais, mas apenas de assuntos derivados a vida no Vale dos Irmãos. Poderiam ser organizadas festas e comemorações, mas os habitantes do Vale não poderiam mais se referir a vida de ninguém, sem prévio pedido. A relação com os outros e entre os próprios habitantes tornaria-se "política", isto é, afim de preservar um afastamento íntimo. Isso manteria a comunidade numa relação "disfarçada", sem considerações pessoais, como a do próprio *Fugitif* que chamou os *irmãos* de "bestiais", e salvaguardando a relação administrativa ou profissional entre os habitantes, com o único objetivo de proteger o Vale dos Irmãos.
Ao ser anunciado por *Ranzinzaf* os propositivos de que tratam o novo documento, *Invasif* deu um salto pra frente, indignado:
  - Isso é um absurdo! Um grande absurdo! Não podemos levar em conta os argumentos citados neste documento. O que sempre nos uniu, diferente dos outros Vales, foi justamente a proximidade íntima e a abertura fraterna nos debates. Para cada problema surgido entre nós, esclareciamos entre os habitantes, esclareciamos entre os *irmãos* e isso nos preservava, nos distanciava dos outros maldizentes. A proximidade íntima, as iniciativas pessoais, os conselhos, são exatamente o que nos distingue dos outros que preferem manter-se individualizados, com suas vidas falsas e isoladas.
  - Não é de modo algum estranho que tal consideração venha da boca de *Invasif* que é quem mais se intromete na vida dos outros! - argumentou *Coitadof * - E tudo isso que você disse aí me parece nada mais que pura inveja! Inveja porque somos nós, *Deprimif* e eu, que fizemos! Quando alguma coisa não é de sua autoria ou de sua compreensão, você discorda! Sempre foi assim!
  - Mas isso... - disse *Invasif*.
  - Você sabe que sempre foi assim! Apenas o seu jeito é capaz de funcionar, de dar certo! O de mais ninguém presta! - rebateu.
  - Não vou mentir e dizer que não é assim. Vou dizer que penso que tenham razão, mas isso não justifica o documento. Pois, se é assim, o documento não é feito para o bem geral do Vale dos Irmãos, e sim direcionado a mim que faço comentários da vida pessoal dos outros.
  - Não, nada disso! É um documento nosso, produzido por *Deprimif* e eu, e em nada toca você - disse *Coitadof *.
  - E você, *Deprimif*, o que responde disso? Seu nome é constantemente citado.
  - Pra mim, os dois tem razão e o que o documento visa é assegurar o equilíbrio das partes - disse *Deprimif*, mais uma vez sem se comprometer.
  - Mas aí, em nada ajuda, pois não se posiciona, não faz escolhas, tens que perder se quiser ganhar algum dia - disse *Invasif* mais uma vez.
  - E não tem não! Estão vendo! Vêem! *Invasif* tenta manipular *Deprimif*. Este já se posicionou. Disse do equilíbrio e é só. Nem tudo na vida precisa se escolher - defendeu *Coitadof *.
Imediatamente ao comentário de *Coitadof *, muitos concordaram com a cabeça. Este debate, em plena praça pública, colocou *Invasif* em uma situação embaraçosa, já que é ele o líder substituto, ou "o direto-imediato" de *Ranzinzaf*. Sua figura caiu em desgraça, uma vez que *Coitadof * disse exatamente o que muitos gostariam de dizer e não tinham coragem. *Invasif* se viu derrotado e entendeu que aquilo poderia representar o fim do Vale. Em todo caso, não respondeu e deixou a comunidade votar conforme seu critério. Já não seria mais *Invasif* quem manteria a fraternidade de pé. Pelo contrário, todo o Vale decidiria o melhor.
*Ranzinzaf* abriu então as eleições imediatas e o povo logo escolheu: "Pela determinação de todos e o poder que me foi concedido, o documento, tal qual produzido por *Coitadof * e *Deprimif*, foi aprovado por maioria e entrará em vigor a partir de agora".
Enquanto os outros comemoravam, os olhares dirigiram-se pontualmente a *Invasif* que lamentou. *Fugitif* e *Professof* não comemoraram e entenderam a vitória de um lado e a derrota do outro. Tudo aquilo soava mais diretivo a *Invasif* do que propriamente uma opção democrática. É como se o sentimento de todos, por tudo aquilo que *Invasif * representa e o quanto os habitantes se indignam com isso, vencesse o processo. Era um recado direto de que *Invasif* ou outro que quisesse fazer o mesmo que ele, não mais poderiam sob pena de reclusão ou desprezo. *Ranzizaf* também entendeu os dois lados, mas só depois que lhe foi explicado.
Tudo caminhava para um novo paradigma no Vale dos Irmãos e o futuro que se seguirá é uma incógnita!

MLHSM