sábado, 27 de julho de 2013

O que vai e o que fica...



Minha mãe morreu. Mas ao invés de sentir todo o sofrimento que é normal numa hora dessas, eu estou feliz. Não que eu possa dizer que seja uma felicidade estampada por um sorriso de alegria. É uma felicidade diferente, como que sabendo que algo melhor está por vir e minha mãe sabe disso.

Minha mãe não suportou as dores da vida. Faleceu há poucos dias. Não suportou as separações e as perdas naturais. Morreu amargurada. Mas uma amargura diferente. Amargura por não demonstrar ou dizer mais do que queria. Dizer o quanto estava satisfeita pelo que tinha e o quanto amava seus próximos. Minha mãe não queria viver. Não agüentava mais as lamentações da vida. O desejo de ter o que não podia. A vontade de abraçar o mundo, de colocar debaixo da asa e proteger com a própria vida. Essa era a minha mãe. Que quis que o mundo todo fosse feliz, nem que isso lhe custasse à própria felicidade.

Mas, como disse, ao contrário do que muitos acham, eu estou feliz. Numa felicidade que é só minha e de mais ninguém. Que não carece de sorriso ou choro. Uma felicidade que me apresenta ao mundo, tal como o entendo. Uma felicidade que é interna e que me coloca em posição de usufruir mais do que tenho. E não é material; é de outro plano, que não dá pra explicar assim, nas palavras.

Eu estou feliz porque minha mãe fez tudo por mim. Tudo o quanto pôde fazer. Mais do que eu mereci ganhar ou ter. E ela não suportou mais fazer isso, da forma como fazia antes. Não havia nada mais a oferecer a mim. Quando precisei, recebi carinho, abraço, beijo, alegria, dinheiro, estudo, comida... Tudo o que ela pôde me dar. Até um emprego. Mas ela, cansada de tudo isso, descobriu que nada mais me era necessário. Descobriu que precisava olhar para a sua vida e começar a investir em si mesmo. E isso não lhe interessou tanto. Minha mãe queria dar-se, doar-se, entregar-se a alguém. Queria se perder nisso, sem que houvesse necessidade de olhar para dentro, porque isso lhe causava dor. Ela queria se perder em alguém e, com isso, foi-se desencontrando de si. Desencontrou-se tanto que não conseguiu encontrar-se de novo. Perdeu-se. E quando descobriu que não podia fazer mais nada por ninguém, seu objetivo acabou. Quando se deu conta, não suportou mais a dor da vida.

Enfim, eu estou feliz. Estou feliz porque ela me deu tudo! Garantiu-me cada momento de alegria e absorveu de mim cada instante de tristeza. Minha mãe foi e é o grande amor da minha vida! A mulher mais importante que nessa terra viveu e a pessoa mais importante que conheci!

E eu estou feliz... Sabe por quê?

Porque não sou religioso, mas sei que as coisas começaram a dar certo. Que a cada dia uma nova oportunidade bate a minha porta e eu preciso me preparar para recebê-la. Que a cada momento algo novo se realiza. Também porque sei que sigo pelo caminho certo. Que estou no rumo certo e não tenho duvida. E, mesmo que não seja religioso, eu acredito... Não acaba por aqui o que a minha mãe fez por mim. É o começo. E as coisas começaram a dar certo e tem um dedo dela em cada coisa disso tudo!

Sabe quem me ensinou a pensar assim? Minha mãe.

Marcelo Horta

Nenhum comentário:

Postar um comentário