segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Conto: o que os autistas sabem?



Durante toda a vida, ele escutou que não poderia fazer nada! Que seria incapaz de viver em sociedade, de trabalhar, de estudar, de amar. Que ficaria ali, trancafiado em seu mundo e que não poderia sequer fazer contatos ou mesmo se comunicar. Escutou ainda que seus pais precisariam largar tudo! Emprego, vida pessoal, vida amorosa... Tudo mesmo, para viver por conta dele! E também que não esperassem nenhum retorno, a não ser a morte ou quiçá um milagre! Ele escutou tudo aquilo calado e sem ter o que fazer. Essa era a condição!
E eis que um dia o “milagre” aconteceu!
Numa reunião que ocorreu em sua casa, com pais de crianças com transtornos autistas, oriundos da escola em que estudava, ele a viu! Seus olhos, que antes vagavam pelo vazio, perdidos em sua imaginação, não conseguiram se distanciar dos olhos dela. Eram lindos. Verdadeiras pérolas brilhantes. Pareciam tão tristes quanto os seus eram antes de a conhecer. Os olhos dela lembraram a ele os momentos doces da infância em que não tinha que lidar com o desespero dos pais! Dos tempos em que a convivência não se dava por necessidade, mas por puro prazer! Dos tempos em que conseguia responder a convocação dos pais, simplesmente para ser feliz! Tudo isso ele encontrou nos olhos dela, que não olhavam para ele, é verdade, mas que registravam a sua presença. Ela também era autista, filha de um casal da reunião. Ela entendia a presença dele e sabia que estava ali, sendo olhada e admirada por olhos não mais perdidos. Assim como os olhos dele se fixaram nos dela, seus lábios, antes imóveis, faziam um esforço tremendo para localizar uma palavra. O ponto perfeito do desejo que descreveria a exatidão daquele momento. E ele disse seu nome! Sua primeira palavra! Como uma mensagem endereçada a ela, de alguém que queria se apresentar. E ele, sorridente, repetiu mais uma vez, e outra, e mais outra... Cada vez de um jeito novo! Gostava daquilo. Queria aproveitar. Gozar daquele instante. Queria receber o som do próprio nome, sendo enunciado por ele. E repetiu inúmeras vezes. Repetiu tanto que acabou conquistando a atenção perdida da linda menina. Como num passe de mágica (ou milagre?!), ela foi descendo cautelosamente os seus olhos até que encontrassem os dele, ainda fixados nela. Ela tremeu, suou, ameaçou se bater... Mas... sentiu uma vontade enorme de não fazer nada, apenas olhar para ele! Tudo já não era como antes. Não era como os pais queriam ou a escola. Agora era diferente. Dessa vez, ela queria. Queria ficar ali. Queria olhar pra ele. Queria tocar... Mas ainda não era hora! Não se sentia à vontade para avançar tanto. Tinha medo! Embora quisesse muito fazer. Mas ele, não precisava das palavras ou do toque dela. O leve e doce olhar lhe era suficiente.
E eles ficaram ali, parados, se olhando, e apenas isso. Ficaram se olhando, se olhando e se olhando, por horas... Se olharam tanto que conseguiram ver!!!
Mas a reunião acabou! Era hora de ir embora! Só poderão se encontrar de novo na semana que vem, na próxima reunião de pais! E embora não quisessem se separar, eles sabiam que iriam se ver de novo, mas com um novo olhar, marcado por um traço que só eles conheciam. Que só eles podiam dizer como é. Mas é dispensável! Falar pode ser dispensável tem horas.
Depois disso, os pais dele não entendiam o motivo pelo qual ele ficava olhando pela janela, por horas a fio, “assim meio perdidão”, como diziam os pais.
Mas isso de fato não importa! Porque ele... Ele sabia exatamente o porquê!

Marcelo Horta Mariano

domingo, 11 de agosto de 2013

O mensageiro da noite



Tarde da noite. Gabriel se prepara para dormir. Dia cheio e cansativo. Está exausto. Só quer saber de sua cama e de uma boa noite de sono. Não pode reclamar de nada: tem tudo! Uma vida boa, uma esposa linda e um trabalho rentável (embora cansativo). As coisas transcorrem como sempre quis.

No quarto, deita-se, beija a esposa e aconchega-se por debaixo do edredom. De repente, acorda assustado. Seu celular acusa o recebimento de uma mensagem. Gabriel lê surpreso:

É a emoção da vida... a emoção da vida...
Da vida dividida e que acima de tudo deu vida a você!!!

“O que? Mas que diabo é isso? Seria brincadeira? Mal entendido?” – pensa levantando-se da cama e indo até a cozinha.

Decide beber um copo d’água enquanto pensa na mensagem. Gabriel não sabe sequer o motivo dela. Não sabe nem mesmo porque aquilo o incomoda tanto. Certo é que aquilo é estranho. Não parece obra de algum amigo e o número lhe é desconhecido. Pensa apenas em enviar uma mensagem de volta. “Talvez a pessoa se identifique”. Assim, resolve escrever algo do mesmo estilo:

É a vida, que vida, vida bandida...
E que uma dívida não deixará de ser!

“Pronto! Isso é o bastante! Ou alguém se apresenta ou retrata o engano! O mínimo que pode acontecer é não chegar mais mensagens e isso está de bom tamanho!”.

Gabriel termina o longo copo de água, como se aguardasse algum retorno. Nada. “Fora um engano” – pensa.
Quando se prepara novamente para dormir, o celular toca de novo:

Seja lá como for... tenha fé,
Porque até no lixão nasce flor...

“Mas que droga é essa?” e responde mais uma vez:

Calma, calma! Nada sublime que não
Valha a sua dor...

Gabriel responde à mensagem. Não sabe porque o faz, mas quer isso. Sente uma estranha sensação de que por trás disso existe um recado e que é dirigido a ele. Ocorre-lhe a ideia de algum amor perdido ou outra coisa! Até um suicídio! “Porque não? Alguém pode estar precisando de ajuda”.
Chega mais uma:

É... essa dor... que fere e cura...
Cria-nos e nos destrói...

Gabriel fica apreensivo e inquieto. Anda de lado a outro na cozinha. Não faz ideia do que se trata. E mais: teme pelo que possa ser. Mesmo assim, decide ser rápido, afinal alguém pode estar precisando de ajuda. E num tom melancólico, mas filosófico, envia outra:

Mas que corrói... mas que ajuda...

E o retorno:

Ajuda sim...
E você é um amigo de verdade...

“Opa!? Amigo!? Será mesmo um amigo? Ou é só jeito de falar? Minhas mensagens estão surtindo efeito” – pensa enquanto abre uma garrafa inteira de água. Seu cinzeiro acusa a presença de um novo cigarro, o terceiro de Gabriel.

Ih... agora tudo... tudo mesmo...
Enche-se de vaidade...

E troca mais mensagens pelo celular:

Pior que é verdade...
Às vezes a gente precisa disso...

Calma, não se deixe iludir...
Não se afunde em achismos...

Quando se aprende a amar,
O mundo passa a ser seu...

“Amar!? Ele está falando de amor! O que isso quer dizer? Sofrendo por amor?”. De sua cabeça não sai a ideia de suicídio. Não sabe porque só pensa nisso, mas a ideia o assusta. “Pode ser uma mulher... porque não? Uma mulher sofrendo por amor, por um amor perdido... Suicídio? O que será que ela quer?”.

O mundo não é dela, nem dele,
Nem ela, nem eu...

Gabriel não sabe porque, mas está começando a gostar daquilo. Sente uma veia poética pulsar em seu corpo, ao mesmo tempo que se sente como um detetive prestes a resolver um mistério. “Há mensagens com conteúdo latente que revelam coisas novas a cada momento”.
E troca mais mensagens:

Tem gente a sorrir e a chorar... é a vida...

Mas é bonita... e é bonita... e é bonita...

Se a vida é curta e o mundo pequeno...
Gostoso veneno...

E tanto faz indiferença e intolerância...
Doce mesmo, meu caro, só na infância...

Danço eu... dança você...
Na dança da solidão...

E descobre-se logo o doce sabor da escuridão...

Quem bebeu daquela água,
Não terá mais amargura...

Mas como sabe de tal agua milagreira?
Pode haver mais que doçura!

Vale acreditar?

Vale no que bem quiser, mas...
Mas pode demorar...

Alguém me avisou...
Pra pisar nesse chão, só devagarinho...

Com cuidado e precaução...
Sempre com atenção
No que está pelo caminho...

Na minha vida tanto faz...

Pare de lamentação...
Põe o pé no chão...
Corre atrás...

Naquela altura, Gabriel já se sente íntimo de seu amigo desconhecido. Nunca passara tanto tempo trocando mensagens.

O relógio da cozinha indica quase 4 horas da manhã. Mas Gabriel não se interessa. Tudo o que quer saber é como aquilo vai acabar. Já não tem sono e nem mesmo sente o cansaço do dia. E assim, segue seu calvário, recebendo mais mensagem:

Na verdade, eu quero tirar os pés do chão...

“Mas o que quer dizer isso? Deus do céu... ele vai pular? Será que ele quer pular? Pular de um prédio? Dar cabo da vida... mas o que é isso?”. Mas, apesar de tudo, Gabriel mantém a calma. Segue conformado. “Se ele quer pular... ora... o que eu posso fazer? Cada um escreve o seu destino... mas será que ele vai pular? É isso que ele diz? Enfim...”.

Então pula...
Voa...
Mas sai dessa de azarão...

Gabriel estremece da cabeça aos pés. “Mas porque fui falar aquilo? Mas que droga...”. Resolve acender mais um cigarro.
E passa-se muito tempo... “O que será que aconteceu? Será que ele pulou? Filho do puta...”. Imagina a cena de um homem, que sofrendo por amor, pula de um prédio. “Amanhã o filho da puta será capa de todos os jornais”.
Mas, depois de muita aflição, chega outra mensagem:

Eu pulo sim! Mas pulo com ela!
Levo-a comigo.
Estou esperando que a minha sogra
Se recupere da loucura para...
Infelizmente...

“Ele não pulou!? Não pulou... graças a Deus! Mas espera... ele vai pular... e com uma mulher! Que raios de vagabundo faria uma coisa dessas?”.
Gabriel sente que resolveu o mistério, mas, diante desta novidade, não sabe mais o que fazer. Resolve dar uma última cartada, não menos poética, tal como já vinha sendo:

Você pode ter em mente que tudo isso vai...
Até as últimas consequências...
E quem perdeu, que corra atrás...
Quem ganhou precisa agir com inteligência!

“Pronto! Fim! Está é a última! Que noite! Mas fodas... cada um constrói seu destino! O que tiver que acontecer, não depende de mim!”

Gabriel olha pela janela e acompanha o início da manhã. Passara a noite ali, digitando mensagens. E nem mesmo sabe pra quem. Sente-se bem, mas um pouco bobo. Toda essa história o deixara exausto. “Mas nada é tão insuportável que justifique um suicídio... Que droga! Ah, mas fazer o que? Fiz tudo o que pude! Outros talvez nem responderiam nada! Eu ajudei do jeito que deu”.

Enfim revolve dormir. Não há nada mais que fazer.

Ao chegar no quarto, Gabriel depara-se com sua esposa, dormindo lindamente. Fita-a por alguns instantes. Seus pensamentos começam a se organizar, não sabe exatamente porque... “Mas é bom”. Certo é que... aquilo não incomoda mais. Gabriel está feliz. Melhor, satisfeito. Feliz por ajudar alguém que nem mesmo conhece. “Cada um escolhe sua história...”.

Minutos depois, o celular acusa uma nova mensagem. Gabriel pega o telefone, olha-o por alguns instantes e decide não ler.

Afinal, está satisfeito com a vida que escolhera.

Marcelo Horta Mariano

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ver




Veríamos no louco, lucidez,
No fraco, força,
No doente, saúde,
Na morte, vida,
No companheiro, amizade,
Na miséria, esperança,
Na ideologia, sustentação,
No oposto, atração,
No desacordo, ponto,
Na guerra, burrice,
No problema, solução,
No soberano, proteção,
No amor, vitalidade,
Na rivalidade, aceitação,
Em nós, compaixão,
Na derrota, vitória,
Na vida, alegria,
No céu, beleza,
Na estrela, brilho,
No sol, virtude,
Em nossa face, quem somos

Marcelo