Tarde da noite. Gabriel se
prepara para dormir. Dia cheio e cansativo. Está exausto. Só quer saber de sua
cama e de uma boa noite de sono. Não pode reclamar de nada: tem tudo! Uma vida
boa, uma esposa linda e um trabalho rentável (embora cansativo). As coisas transcorrem
como sempre quis.
No quarto, deita-se, beija a
esposa e aconchega-se por debaixo do edredom. De repente, acorda assustado. Seu
celular acusa o recebimento de uma mensagem. Gabriel lê surpreso:
É a emoção da vida... a
emoção da vida...
Da vida dividida e que
acima de tudo deu vida a você!!!
“O que? Mas que diabo é isso?
Seria brincadeira? Mal entendido?” – pensa levantando-se da cama e indo até a
cozinha.
Decide beber um copo d’água
enquanto pensa na mensagem. Gabriel não sabe sequer o motivo dela. Não sabe nem
mesmo porque aquilo o incomoda tanto. Certo é que aquilo é estranho. Não parece
obra de algum amigo e o número lhe é desconhecido. Pensa apenas em enviar uma
mensagem de volta. “Talvez a pessoa se identifique”. Assim, resolve escrever
algo do mesmo estilo:
É a vida, que vida,
vida bandida...
E que uma dívida não
deixará de ser!
“Pronto! Isso é o bastante! Ou
alguém se apresenta ou retrata o engano! O mínimo que pode acontecer é não
chegar mais mensagens e isso está de bom tamanho!”.
Gabriel termina o longo copo de
água, como se aguardasse algum retorno. Nada. “Fora um engano” – pensa.
Quando se prepara novamente para
dormir, o celular toca de novo:
Seja lá como for...
tenha fé,
Porque até no lixão
nasce flor...
“Mas que droga é essa?” e
responde mais uma vez:
Calma, calma! Nada
sublime que não
Valha a sua dor...
Gabriel responde à mensagem. Não
sabe porque o faz, mas quer isso. Sente uma estranha sensação de que por trás
disso existe um recado e que é dirigido a ele. Ocorre-lhe a ideia de algum amor
perdido ou outra coisa! Até um suicídio! “Porque não? Alguém pode estar
precisando de ajuda”.
Chega mais uma:
É... essa dor... que
fere e cura...
Cria-nos e nos
destrói...
Gabriel fica apreensivo e
inquieto. Anda de lado a outro na cozinha. Não faz ideia do que se trata. E mais:
teme pelo que possa ser. Mesmo assim, decide ser rápido, afinal alguém pode
estar precisando de ajuda. E num tom melancólico, mas filosófico, envia outra:
Mas que corrói... mas
que ajuda...
E o retorno:
Ajuda sim...
E você é um amigo de
verdade...
“Opa!? Amigo!? Será mesmo um
amigo? Ou é só jeito de falar? Minhas mensagens estão surtindo efeito” – pensa
enquanto abre uma garrafa inteira de água. Seu cinzeiro acusa a presença de um novo
cigarro, o terceiro de Gabriel.
Ih... agora tudo...
tudo mesmo...
Enche-se de vaidade...
E troca mais mensagens pelo celular:
Pior que é verdade...
Às vezes a gente
precisa disso...
Calma, não se deixe
iludir...
Não se afunde em
achismos...
Quando se aprende a
amar,
O mundo passa a ser
seu...
“Amar!? Ele está falando de amor!
O que isso quer dizer? Sofrendo por amor?”. De sua cabeça não sai a ideia de
suicídio. Não sabe porque só pensa nisso, mas a ideia o assusta. “Pode ser uma
mulher... porque não? Uma mulher sofrendo por amor, por um amor perdido...
Suicídio? O que será que ela quer?”.
O mundo não é dela,
nem dele,
Nem ela, nem eu...
Gabriel não sabe porque, mas está
começando a gostar daquilo. Sente uma veia poética pulsar em seu corpo, ao mesmo
tempo que se sente como um detetive prestes a resolver um mistério. “Há
mensagens com conteúdo latente que revelam coisas novas a cada momento”.
E troca mais mensagens:
Tem gente a sorrir e a
chorar... é a vida...
Mas é bonita... e é
bonita... e é bonita...
Se a vida é curta e o
mundo pequeno...
Gostoso veneno...
E tanto faz
indiferença e intolerância...
Doce mesmo, meu caro,
só na infância...
Danço eu... dança
você...
Na dança da solidão...
E descobre-se logo o
doce sabor da escuridão...
Quem bebeu daquela
água,
Não terá mais
amargura...
Mas como sabe de tal
agua milagreira?
Pode haver mais que
doçura!
Vale acreditar?
Vale no que bem
quiser, mas...
Mas pode demorar...
Alguém me avisou...
Pra pisar nesse chão,
só devagarinho...
Com cuidado e
precaução...
Sempre com atenção
No que está pelo
caminho...
Na minha vida tanto
faz...
Pare de lamentação...
Põe o pé no chão...
Corre atrás...
Naquela altura, Gabriel já se
sente íntimo de seu amigo desconhecido. Nunca passara tanto tempo trocando mensagens.
O relógio da cozinha indica quase
4 horas da manhã. Mas Gabriel não se interessa. Tudo o que quer saber é como
aquilo vai acabar. Já não tem sono e nem mesmo sente o cansaço do dia. E assim,
segue seu calvário, recebendo mais mensagem:
Na verdade, eu quero
tirar os pés do chão...
“Mas o que quer dizer isso? Deus
do céu... ele vai pular? Será que ele quer pular? Pular de um prédio? Dar cabo
da vida... mas o que é isso?”. Mas, apesar de tudo, Gabriel mantém a calma.
Segue conformado. “Se ele quer pular... ora... o que eu posso fazer? Cada um
escreve o seu destino... mas será que ele vai pular? É isso que ele diz? Enfim...”.
Então pula...
Voa...
Mas sai dessa de
azarão...
Gabriel estremece da cabeça aos
pés. “Mas porque fui falar aquilo? Mas que droga...”. Resolve acender mais um
cigarro.
E passa-se muito tempo... “O que
será que aconteceu? Será que ele pulou? Filho do puta...”. Imagina a cena de um
homem, que sofrendo por amor, pula de um prédio. “Amanhã o filho da puta será
capa de todos os jornais”.
Mas, depois de muita aflição,
chega outra mensagem:
Eu pulo sim! Mas pulo
com ela!
Levo-a comigo.
Estou esperando que a
minha sogra
Se recupere da loucura
para...
Infelizmente...
“Ele não pulou!? Não pulou...
graças a Deus! Mas espera... ele vai pular... e com uma mulher! Que raios de
vagabundo faria uma coisa dessas?”.
Gabriel sente que resolveu o
mistério, mas, diante desta novidade, não sabe mais o que fazer. Resolve dar
uma última cartada, não menos poética, tal como já vinha sendo:
Você pode ter em mente
que tudo isso vai...
Até as últimas
consequências...
E quem perdeu, que
corra atrás...
Quem ganhou precisa
agir com inteligência!
“Pronto! Fim! Está é a última!
Que noite! Mas fodas... cada um constrói seu destino! O que tiver que
acontecer, não depende de mim!”
Gabriel olha pela janela e
acompanha o início da manhã. Passara a noite ali, digitando mensagens. E nem
mesmo sabe pra quem. Sente-se bem, mas um pouco bobo. Toda essa história o
deixara exausto. “Mas nada é tão insuportável que justifique um suicídio... Que
droga! Ah, mas fazer o que? Fiz tudo o que pude! Outros talvez nem responderiam
nada! Eu ajudei do jeito que deu”.
Enfim revolve dormir. Não há nada
mais que fazer.
Ao chegar no quarto, Gabriel
depara-se com sua esposa, dormindo lindamente. Fita-a por alguns instantes.
Seus pensamentos começam a se organizar, não sabe exatamente porque... “Mas é
bom”. Certo é que... aquilo não incomoda mais. Gabriel está feliz. Melhor,
satisfeito. Feliz por ajudar alguém que nem mesmo conhece. “Cada um escolhe sua
história...”.
Minutos depois, o celular acusa
uma nova mensagem. Gabriel pega o telefone, olha-o por alguns instantes e
decide não ler.
Afinal, está satisfeito com a
vida que escolhera.
Marcelo Horta Mariano