domingo, 11 de agosto de 2013

O mensageiro da noite



Tarde da noite. Gabriel se prepara para dormir. Dia cheio e cansativo. Está exausto. Só quer saber de sua cama e de uma boa noite de sono. Não pode reclamar de nada: tem tudo! Uma vida boa, uma esposa linda e um trabalho rentável (embora cansativo). As coisas transcorrem como sempre quis.

No quarto, deita-se, beija a esposa e aconchega-se por debaixo do edredom. De repente, acorda assustado. Seu celular acusa o recebimento de uma mensagem. Gabriel lê surpreso:

É a emoção da vida... a emoção da vida...
Da vida dividida e que acima de tudo deu vida a você!!!

“O que? Mas que diabo é isso? Seria brincadeira? Mal entendido?” – pensa levantando-se da cama e indo até a cozinha.

Decide beber um copo d’água enquanto pensa na mensagem. Gabriel não sabe sequer o motivo dela. Não sabe nem mesmo porque aquilo o incomoda tanto. Certo é que aquilo é estranho. Não parece obra de algum amigo e o número lhe é desconhecido. Pensa apenas em enviar uma mensagem de volta. “Talvez a pessoa se identifique”. Assim, resolve escrever algo do mesmo estilo:

É a vida, que vida, vida bandida...
E que uma dívida não deixará de ser!

“Pronto! Isso é o bastante! Ou alguém se apresenta ou retrata o engano! O mínimo que pode acontecer é não chegar mais mensagens e isso está de bom tamanho!”.

Gabriel termina o longo copo de água, como se aguardasse algum retorno. Nada. “Fora um engano” – pensa.
Quando se prepara novamente para dormir, o celular toca de novo:

Seja lá como for... tenha fé,
Porque até no lixão nasce flor...

“Mas que droga é essa?” e responde mais uma vez:

Calma, calma! Nada sublime que não
Valha a sua dor...

Gabriel responde à mensagem. Não sabe porque o faz, mas quer isso. Sente uma estranha sensação de que por trás disso existe um recado e que é dirigido a ele. Ocorre-lhe a ideia de algum amor perdido ou outra coisa! Até um suicídio! “Porque não? Alguém pode estar precisando de ajuda”.
Chega mais uma:

É... essa dor... que fere e cura...
Cria-nos e nos destrói...

Gabriel fica apreensivo e inquieto. Anda de lado a outro na cozinha. Não faz ideia do que se trata. E mais: teme pelo que possa ser. Mesmo assim, decide ser rápido, afinal alguém pode estar precisando de ajuda. E num tom melancólico, mas filosófico, envia outra:

Mas que corrói... mas que ajuda...

E o retorno:

Ajuda sim...
E você é um amigo de verdade...

“Opa!? Amigo!? Será mesmo um amigo? Ou é só jeito de falar? Minhas mensagens estão surtindo efeito” – pensa enquanto abre uma garrafa inteira de água. Seu cinzeiro acusa a presença de um novo cigarro, o terceiro de Gabriel.

Ih... agora tudo... tudo mesmo...
Enche-se de vaidade...

E troca mais mensagens pelo celular:

Pior que é verdade...
Às vezes a gente precisa disso...

Calma, não se deixe iludir...
Não se afunde em achismos...

Quando se aprende a amar,
O mundo passa a ser seu...

“Amar!? Ele está falando de amor! O que isso quer dizer? Sofrendo por amor?”. De sua cabeça não sai a ideia de suicídio. Não sabe porque só pensa nisso, mas a ideia o assusta. “Pode ser uma mulher... porque não? Uma mulher sofrendo por amor, por um amor perdido... Suicídio? O que será que ela quer?”.

O mundo não é dela, nem dele,
Nem ela, nem eu...

Gabriel não sabe porque, mas está começando a gostar daquilo. Sente uma veia poética pulsar em seu corpo, ao mesmo tempo que se sente como um detetive prestes a resolver um mistério. “Há mensagens com conteúdo latente que revelam coisas novas a cada momento”.
E troca mais mensagens:

Tem gente a sorrir e a chorar... é a vida...

Mas é bonita... e é bonita... e é bonita...

Se a vida é curta e o mundo pequeno...
Gostoso veneno...

E tanto faz indiferença e intolerância...
Doce mesmo, meu caro, só na infância...

Danço eu... dança você...
Na dança da solidão...

E descobre-se logo o doce sabor da escuridão...

Quem bebeu daquela água,
Não terá mais amargura...

Mas como sabe de tal agua milagreira?
Pode haver mais que doçura!

Vale acreditar?

Vale no que bem quiser, mas...
Mas pode demorar...

Alguém me avisou...
Pra pisar nesse chão, só devagarinho...

Com cuidado e precaução...
Sempre com atenção
No que está pelo caminho...

Na minha vida tanto faz...

Pare de lamentação...
Põe o pé no chão...
Corre atrás...

Naquela altura, Gabriel já se sente íntimo de seu amigo desconhecido. Nunca passara tanto tempo trocando mensagens.

O relógio da cozinha indica quase 4 horas da manhã. Mas Gabriel não se interessa. Tudo o que quer saber é como aquilo vai acabar. Já não tem sono e nem mesmo sente o cansaço do dia. E assim, segue seu calvário, recebendo mais mensagem:

Na verdade, eu quero tirar os pés do chão...

“Mas o que quer dizer isso? Deus do céu... ele vai pular? Será que ele quer pular? Pular de um prédio? Dar cabo da vida... mas o que é isso?”. Mas, apesar de tudo, Gabriel mantém a calma. Segue conformado. “Se ele quer pular... ora... o que eu posso fazer? Cada um escreve o seu destino... mas será que ele vai pular? É isso que ele diz? Enfim...”.

Então pula...
Voa...
Mas sai dessa de azarão...

Gabriel estremece da cabeça aos pés. “Mas porque fui falar aquilo? Mas que droga...”. Resolve acender mais um cigarro.
E passa-se muito tempo... “O que será que aconteceu? Será que ele pulou? Filho do puta...”. Imagina a cena de um homem, que sofrendo por amor, pula de um prédio. “Amanhã o filho da puta será capa de todos os jornais”.
Mas, depois de muita aflição, chega outra mensagem:

Eu pulo sim! Mas pulo com ela!
Levo-a comigo.
Estou esperando que a minha sogra
Se recupere da loucura para...
Infelizmente...

“Ele não pulou!? Não pulou... graças a Deus! Mas espera... ele vai pular... e com uma mulher! Que raios de vagabundo faria uma coisa dessas?”.
Gabriel sente que resolveu o mistério, mas, diante desta novidade, não sabe mais o que fazer. Resolve dar uma última cartada, não menos poética, tal como já vinha sendo:

Você pode ter em mente que tudo isso vai...
Até as últimas consequências...
E quem perdeu, que corra atrás...
Quem ganhou precisa agir com inteligência!

“Pronto! Fim! Está é a última! Que noite! Mas fodas... cada um constrói seu destino! O que tiver que acontecer, não depende de mim!”

Gabriel olha pela janela e acompanha o início da manhã. Passara a noite ali, digitando mensagens. E nem mesmo sabe pra quem. Sente-se bem, mas um pouco bobo. Toda essa história o deixara exausto. “Mas nada é tão insuportável que justifique um suicídio... Que droga! Ah, mas fazer o que? Fiz tudo o que pude! Outros talvez nem responderiam nada! Eu ajudei do jeito que deu”.

Enfim revolve dormir. Não há nada mais que fazer.

Ao chegar no quarto, Gabriel depara-se com sua esposa, dormindo lindamente. Fita-a por alguns instantes. Seus pensamentos começam a se organizar, não sabe exatamente porque... “Mas é bom”. Certo é que... aquilo não incomoda mais. Gabriel está feliz. Melhor, satisfeito. Feliz por ajudar alguém que nem mesmo conhece. “Cada um escolhe sua história...”.

Minutos depois, o celular acusa uma nova mensagem. Gabriel pega o telefone, olha-o por alguns instantes e decide não ler.

Afinal, está satisfeito com a vida que escolhera.

Marcelo Horta Mariano

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