terça-feira, 22 de outubro de 2013

Instante



Entre a sala de espera e o início da sessão, uma eternidade! No divã, Mendes, que aguarda o fim de análise. Do lado de fora, a bela Priscila, que não se aguenta mais de tanta ansiedade. É como se Mendes soubesse disso, embora não a conhecesse. O psicanalista, por sua vez, precisa de mais tempo, de um momento, um instante, para finalizar a sessão daquele dia. Uma sessão carregada, cheia de histórias mirabolantes e estranhas, quase sem sentido, que, até então, Mendes nunca havia mencionado. Enfim, ele fala de suas questões e não mais dos outros! Pela primeira vez ele traz seu casamento ao setting analítico e por isso o psicanalista precisa esperar mais.
Priscila, impaciente e vendo alguns de seus minutos passarem, pensa em ir embora. Talvez escolher outro analista ou mesmo “acabar com essa besteira toda”. Afinal, sabe porque está assim. São as escolhas erradas que fez na vida. Principalmente em relação aos homens. O último chegou a espanca-la de tal maneira que não teve coragem sequer de ir para a casa da mãe após a briga. Foi para um hotel e se manteve por lá até que as marcas sumissem. Mas agora é diferente. Está determinada a não mais se submeter as ignorâncias de um homem. Quer dar um basta nisso. Contudo, precisa de orientação, precisa entender o motivo das escolhas erradas. E, assim, por indicação de amigos, resolveu procurar aquele psicanalista.
O profissional indicado é justamente o Dr. Marden, psicanalista reconhecido e de poucos horários. Autor de inúmeros trabalhos publicados e que goza de grande reputação. Marden, inclusive, é especialista em casos de violência doméstica e coordena pesquisas a respeito do tema em uma universidade de renome. Priscila sabe disso, mas sabe também que ele tem outros pacientes, como Mendes. Todos esses pensamentos servem para deixa-la ainda mais ansiosa e agitada, de forma a não se conter na cadeira.
Em todo caso, a sessão de Mendes já está quase no fim. Os atrasos são de minutos. O Dr. Marden ainda está num horário aceitável. Sua reputação se deve em grande parte a isso, isto é, Marden é um psicanalista pontual. E Priscila quer um profissional assim, pontual e preciso. Este é um dos motivos que a faz se identificar com ele.
Após mais alguns minutos, eis que a sessão de Mendes chega ao fim! É o fim de uma sessão cansativa e longa. Mendes está pronto para mais uma semana.
A porta do consultório é aberta.
Mendes sente um grande alivio, como se tirasse um enorme peso das costas. Nunca dissera tanto da sua vida a alguém e nunca falara do casamento. Saiu da sala com a sensação de haver colocado tudo para fora, e na hora certa, e com a pessoa certa também.
Ao sair, Mendes mira o corredor, mas encontra Priscila, de pé, sozinha, com ar desolado, aguardando a sua vez. Ela roí as unhas e está ainda mais nervosa que antes. Sabe que não há mais como fugir. Chega a sua hora. É a primeira vez que vai falar da sua vida a um profissional especializado (“ou a um estranho”).
Entretanto, antes mesmo de adentrar a sala, Priscila é surpreendida por Mendes que lhe dá um abraço desconcertante. Tomado por um instante acalorado, num intervalo entre seus pensamentos, e provocado pelas intervenções do analista, Mendes abraça Priscila que fica ali, imóvel, espantada e sem reação. Ela olha para o analista como se esperasse uma interdição dele, mas nada. O abraço dura questão de segundos. Tempo suficiente para gerar um mal-estar e um sentimento de estranheza em todos, inclusive Mendes que não sabe porque fez aquilo.
Logo em seguida, ele a solta, fita seus olhos e se põe a partir. Não dá nenhuma pista do motivo que o levou a fazer aquilo. Por sua vez, Priscila fica em estado de choque. Permanece mais alguns segundos de pé e com os braços em torno do corpo, como se abraçasse a si mesma ou protegesse um corpo desnudo. Ela não o abraçara. Não correspondeu ao gesto. Mas aquilo a incomodou profundamente.
Priscila que sempre fora tão maltratada pelo excesso de confiança nas escolhas de homens que fez para a vida, sente-se agora frágil, inibida. Sente-se como se estivesse nua em plena praça pública, como se fosse o motivo de chacota de todo mundo. Sente-se envergonhada, suja... E desejada! Tem medo de seu próprio sentimento. Do próprio desejo que sente.
Sua sessão que deveria focar nas desastrosas escolhas amorosas, volta-se para o estranho instante do abraço. Que a tocou. Tocou mais que as mãos frias de Mendes. Como uma questão que não era sua e que passou a ser. Mas que, no fundo, sempre foi!

Marcelo Horta Mariano

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