quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Confissões de um escritor (1980)



“Quando nasci, fui impelido a selar um pacto com o mundo. Eu precisava ceder do meu lado para que pudesse adentrar nas maravilhas que a cultura poderia oferecer. Por escolha minha, resolvi aceitar, para que também não vivesse isolado. Para o meu bem, minha escolha resultou em bons frutos, já que me reconheci e reconheci os outros. Não era como antigamente, mas fazia parte do processo. Livre de expectativa, adentrei cada dia no mundo oferecido. Quanto mais postulava objetivos, mais próximo me sentia de voltar ao meu estado anterior. E assim, pratiquei. Procurei, procurei e procurei! Até que chegou o dia em que fracassei... e soube disso! É algo difícil de se dar conta, e nem sempre é possível! Por toda a minha vida, apontei para novos horizontes em busca... para que pudesse me sentir vivo a cada dia. Aos poucos fui descobrindo que não encontraria nada, muito menos aquilo que procurava! O que o mundo me ofereceu era na verdade uma fraude, um caminho sem volta, um túnel sem luz. Eu não fazia ideia de que na verdade não há retorno! E não há outras opções! Nessa trilha turbulenta passei a me dedicar mais e mais no que traria de volta o prazer da vida. Apostei em várias coisas e descobri que escrever devolveria ao mundo o que o mundo me exigiu. Lutei com as armas que me foram dadas e venci. Embora tenha que vencer todos os dias! Passo a passo devolvi ao mundo o que ele me intimou a aceitar e que aceitei! Devolvi a fala, a palavra, a escrita e a razão. Apontei para os lados e atirei... palavras... que ressoaram como uma parte de mim em prol da causa mundana. Entreguei ao mundo um pouco de cada coisa – de palavra à confusão! Descrevi as evidencias dos homens e as inábeis soluções. Inscrevi cada qual num ponto certo da letra. E as palavras saíram até que os limites mentais estourassem para nascer, dali, a obra pronta!
Pelo que sei, ofereci o que me foi dado e exigido! Ofereci de tal forma a condensar fatos doravante deixados de lado. Não é isso? O retorno em forma de poesia? Então aí está, como uma página em branco prestes a contar uma outra história, uma nova história! Seja para que propósito ela for!”

Confissões de um escritor
1980

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