sábado, 13 de setembro de 2014
CENAS
"Quero que meus olhos tirem fotos e que as palavras dêem o contorno exato" (anônimo).
Entro em casa pela porta da frente que dá acesso a sala. Suas paredes, marrom escura e branca, servem para realçar a moda do pequeno apartamento. O sofá claro faz contraste com a parede e a televisão dá o requinte da tecnologia. Almofadas coloridas jogadas pelos lados tornam o ambiente mais alegre e o móvel de madeira segue o tom marrom da parede. As plantas espalhadas pela sala indicam preocupação com a natureza e os espelhos de losango na parede branca ampliam o ambiente. Há um puf amarelo, mas é só enfeite. Chama a atenção a mesa de madeira pura que fica ao centro e que se estende e recua dependendo da ocasião.
Por todos os lados o que se ouve é um silêncio ensurdecedor que determina a paz inocente.
Pela porta da cozinha posso ver a pia de mármore e a geladeira branca que fica logo ao lado. Os azulejos são daqueles antigos, retrógrados, com desenhos de maçã estampados. Parece não haver ninguém na casa.
Pela porta da lavanderia, há a máquina de lavar, o tanque, armários e a entrada de um banheiro que sugere a presença de uma empregada. Ao lado um quartinho que serve como depósito de roupas e de materiais de limpeza.
Retornei pela cozinha e pela sala e me deparei com um cubículo de quatro portas: uma que dá para o banheiro principal, outra para o quarto principal, outra para o quarto de um bebê e a porta que entrei e que liga à sala.
Optei pelo quarto do bebê e vi o berço branco, a cômoda, armários e a cadeira de amamentar. Tudo branco, inclusive a parede e a tela atrás do berço e que tem um enorme galo em recorte e com luzes de led para iluminar sem precisar da luz principal. Realmente parece não haver ninguém na casa.
E agora que estou de frente para a porta do quarto principal, último cômodo da casa, ouço um gemido, bem ao fundo, arranhado e contínuo, como se fosse uma tosse seca abafada por um pano. E o gemido perpetua lenta e progressivamente até tornar-se um choro agudo, estridente e cheio de tristeza, mas que é capaz de tomar conta de todos os cantos da casa. A mesma casa que antes parecia tão sufocada de um silêncio invasor é agora surpreendida por um berreiro capaz de transformar sua estrutura apática e sem vida. Eis que em um instante a casa se transforma em outra. Em meio a sala, a cozinha, a lavanderia, os banheiros, o cubículo e os quartos surgem os mais diversos sons e sentimentos. O choro e o grito (choro-grito) parecem carregar na sonoridade o apelo por carinho e afeto de toda a humanidade. Tende a evocar a necessidade de amor de todo homem e de toda mulher da face da terra e perturbar a paz da alma dos mais quietos. É como se todas as crianças do mundo se unissem em uma só voz para evocar no máximo que apenas o amor é o caminho e mais nada.
Quanto a mim, resta correr e abafar em minh'alma a dor e o desespero. Porém, quando chego bem pertinho, consigo ver a criança, um bebê, na cama, agasalhado, mexendo braços e pernas e sacudindo-se inconsolavelmente num macacãozinho vermelho. Em questão de segundos, ele se acalma e é como se não houvesse aflição alguma e em lugar nenhum do mundo, a não ser a minha própria. Tudo cessou. A dor, o desespero, os gritos, o sofrimento, a humanidade, o choro. E do caos nasce um belo sorriso da imensa boca grande e desdentada. Os olhos brilham e a agitação volta, só que de paz em vez de dor. O foco do olhar é um só e se concentra atrás de mim, para além do meu campo de visão.
Posso dizer com precisão e sem titubear que nada é mais intenso e doce (ao mesmo tempo) que o amor (e tudo o mais que possa haver nisso) no fundo dos olhos de uma mãe apaixonada.
MLHSM
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