quinta-feira, 2 de outubro de 2014

CRÔNICAS DE TERAPIA: CASUALIDADE


Acordei naquela manhã com uma sensação estranha, uma tremenda dor de barriga. Tentei me lembrar de alguma coisa que pudesse ter comido, mas nada me veio a cabeça. Era uma sensação parecida com a minha primeira entrevista de emprego, há alguns dias, e que não deu em nada. Estava nervoso e sabia disso. Era o meu primeiro dia de terapia. Mas eu não tinha certeza se era esse mesmo o motivo da minha angústia.
Era a primeira vez que marcava um psicólogo na vida. Não fazia idéia no que estava me metendo. Achava estranho contar minha história para alguém que mal conhecia (ou não conhecia nada). Mas a questão é que meus problemas atingiram um patamar tão alto que senti a necessidade de procurar um especialista.
Levantei da cama por volta das 6 hs. Fazia tempo que não acordava tão cedo. Mal dormi. Encontrei a mesa do café pronta e arrumada. Tinha pão, queijo, manteiga, leite, café e biscoitos. Um monte de coisas! Pra falar a verdade, eu nem sabia que a minha família levantava tão cedo.
Comi e enquanto voltava para o meu quarto encontrei minha mãe como num susto, chegando da rua com uma sacola cheia de compras. Ela quis saber o motivo de eu estar de pé tão cedo, mas preferi não contar. Não queria que ela soubesse do meu destino já que enrolei tanto pra marcar uma terapia.
Rapidamente tomei um banho e me aprontei. Confesso que estava muito ansioso. Quase não pude me conter de tanto nervosismo. Fiquei pensando mil vezes no que iria dizer ao terapeuta. Não sabia se era pra contar minha vida toda, os atuais problemas ou esperar ele perguntar primeiro.
Recolhi minhas chaves e meus documentos e conferi o dinheiro da análise. (Teria que ser à vista!). Eu não queria perder mais tempo.
Enquanto dirigia, comecei a pensar num monte de  coisas que me aconteceram recentemente. Lembrei-me daquela menina do final de semana, que não tive coragem de me aproximar e que me arrependo amargamente. Também me veio a cabeça uma lembrança da minha ex-namorada no dia em que terminamos. Ela não aguentava mais a minha passividade e pôs fim a tudo. Eu nem briguei ou reagi e a coisa continou como no início: ela falando de nós e eu calado. Às vezes queria ser como os outros, pra frente, disposto... engraçado! Pra eles, parece que nada se perde...
Eu gostaria de estar ainda namorando com ela. Sinto tanta saudade que as vezes dá vontade de chorar. Nada me parecia tão necessário à terapia do que falar da minha inoperância com as pessoas e minha solidão interna.
Tem horas que penso que as coisas que acontecem comigo são casuais. E sinto uma oscilação de culpa; ora me sinto culpado realmente, ora acredito que haverão outras oportunidades. Não sou diferente dos outros, mas sempre tenho a impressão de que estou no caminho contrário.
Pouco antes de chegar a avenida que atravessa a rua do psicólogo, lembrei-me que havia esquecido um cheque da minha mãe pra depositar. Ainda faltavam alguns minutos, então escolhi voltar e buscar. Contornei pela mesma rua e retornei em sentido oposto. Tinha tempo e o trânsito era bom.
Assim que passei dois quarteirões não avistei o carro que vinha pela minha direita, desgovernado. Acabara de furar o sinal vermelho e vinha em alta velocidade na minha direção. Por um milésimo de segundo, senti apenas um estrondo e escutei o barulho de mil pedaços voando pelos ares. Em seguida não vi absolutamente mais nada e o lado direito do meu carro simplesmente desapareceu.
Havia rastros de lata e vidro por todos os lados da rua e o meu carro eram estilhaços no chão. O motorista saiu do carro apavorado e nervoso, esbravejando pra mim como se eu tivesse sido o culpado. E eu, pela resto que tinha de janela no meu carro, não escutei uma palavra sequer que ele dizia. Estava abalado, tenso e assustado e tinha o rastro da morte ainda dentro de mim.
O mundo me pareceu ter entrado em câmera lenta e eu apenas via um vulto exaltado do lado de fora. Por um instante me fiz uma pergunta que nunca mais esqueci na vida: "porque será que voltei?". Logo em seguida desmaiei profundamente!

MLHSM

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