sábado, 26 de julho de 2014

Um ano (EM CENA)




"Os olhos da minha mãe nunca mais encontrariam os meus naquela manhã de segunda".

Segunda-feira. Recebi um telefonema da secretária de minha mãe dizendo que ela passava mal. Entrei no carro e saí correndo. No quarto, uma cena lamentável. O ar dos pulmões (cheios de fumaça de outrora), não vinha mais. Sua fala era debilitada e os olhos caíam como se estivesse adormecendo.
O desespero em mim e na secretária tomou conta do ambiente.
Minha primeira ação foi ligar para a ambulância do convênio médico que não pôde comparecer por questões burocráticas. Liguei então para o SAMU e, explicando a gravidade da situação, forneci dados atrás de dados até que o pedido fosse aprovado. Estavam a caminho.
Tentamos (a secretária e eu) criar meios para que ela pudesse voltar a respirar. Abrimos portas, janelas, cortinas e colocamos a minha mãe sentada para que o ar pudesse vir facilmente. Em vão.
Quando a ambulância chegou com o tubo de oxigênio, nada adiantou e a respiração chegou a piorar. Seria necessária outra ambulância com o desfibrilador. Chegou meu pai e um fio de esperança se acendeu.
A segunda ambulância decidiu remover o corpo ainda vivo para o hospital. Mas ao sair pela porta de casa, seu coração parou pela primeira vez. Fora posta deitada, seminua, numa cena deplorável e digna de dó.
Ela jurou nunca mais voltar a um hospital e cumprira veementemente sua promessa.
Surgiram bombeiros e mais médicos e um deles chegou a cogitar a possibilidade de descê-la pela janela do terceiro andar. Tudo aquilo era lamentável.
Um recado de Deus? Talvez. Um recado dela? Com certeza.
A tentativa de ressuscitá-la com o desfibrilador e com a respiração boca a boca surtiu efeito e minha mãe tentava fixar o olhar em meio aos berros de meu pai. Entre equipamentos médicos, bugigangas, sofás e pessoas (os vizinhos já se aninhavam na porta), os médicos forçavam uma nova descida pela escada.
Mas seu coração parou pela segunda vez.
Novamente era hora de ressuscitá-la.
Sem ter mais o que fazer, o médico responsável decidiu que seria necessário descê-la de uma vez, custe o que custar, pois só no hospital poderia ter o socorro necessário.
Levei-a, carregando junto aos médicos, escada abaixo. Seus olhos agora estavam fixados em mim e eu nada pude dizer. Um olhar triste, inconsolável.
Na rua, dentro da ambulância, os médicos faziam de tudo, mas já era tarde demais. Desconcertado e suado, o médico responsável, que já havia nos informado que caso ela voltasse não mais estaria em seu juízo perfeito, declarou o seu FIM!
A terceira parada cardíaca foi fulminante e minha mãe nunca mais retornou.
Fica lembrança, tristeza, raiva, sentimento de incapacidade...
Mas ela não fica mais!
Nada mais importava.
Era o olhar da despedida, do adeus, do até logo, do nunca mais...
Ou, do pedido de socorro...
Impossível saber...
Era o fim do olhar que não pude ver!

Marcelo Horta Mariano

sábado, 19 de julho de 2014

CRÔNICAS DE TERAPIA: O PAI ANSIOSO


- "Eu não queria estar aqui, é verdade! É meio humilhante! Mas sei que preciso. Relutei muito, mas chegou a hora!".
- Que bom que veio - disse o analista.
- "É com o meu filho, sabe? A questão é dele! A história é dele! Era ele quem precisava de terapia, não eu! Era ele quem deveria estar aqui!".

Enquanto fala modestamente, as mãos do pai ansioso permanecem enclausuradas, fechadas uma a outra, como uma concha. Uma das pernas balança e a outra permanece rígida. Está de cabeça baixa e uma gota de suor desce pela testa lisa. A camisa desbotada indica desleixo e poucos cuidados nos últimos dias. Também indica a falta de uma mulher que lhe dê dicas de como se cuidar melhor e se está bem vestido ou não. A aparência é cansada, como se quisesse realmente dar um ponto final no problema. São indicadores de ansiedade e aflição, o que coloca a questão como algo recente e sem muitas saídas.
Acomodando-se inquietamente na cadeira, o pai continua o relato:

- "Toda essa história de terapia é uma bobagem! Nunca acreditei nisso. Foi meu filho que me convenceu a vir".
- E fez bem.
- "Mais ou menos. Não nego, mas não entendo a necessidade disso. Como vou contar uma coisa pra alguém e de repente os meus problemas vão sumir? Meus problemas não, os do meu filho! Era ele quem deveria estar aqui!".
- E porque 'seu filho' deveria fazer terapia?
- "Porque ele é ansioso e isso me prejudica!".

***

No segundo dia, o pai se apresenta mais arrumado, com camisa de botões, colocada pra dentro da calça jeans gasta, mas em boa ordem. Está de sapato lustrado. Não tem a mesma ansiedade do primeiro dia, como se tivesse tido um bom dia no trabalho ou em casa.
Atravessa a sala a passos uniformes e sem pressa. Senta-se na cadeira como se há anos viesse ali. Está confiante:

- "Não vi motivos para não vir hoje. Pensei e repensei muito. Cheguei a conversar com meu filho. Não sei se estou fazendo a coisa certa. Esta é a sensação. Tenho a impressão de que é o meu filho que deveria estar aqui. De qualquer forma, ele não viria. Então, resolvi vir pra falar dele. Talvez o senhor possa me dar algum conselho".
- Fique à vontade.
- "È o meu filho. É muito ansioso. Não conseguimos manter um bom diálogo. Aliás, não temos diálogo algum. Sempre que venho lhe falar, ele atravessa com comentários. Quer saber mais que eu. Sou eu quem tenho a experiência, a vivência; não ele. Eu sou o pai dele. Isso é coisa dessa geração, com internet e essas frescuras".
- E quando ele atravessa na conversa, o que você faz? Continua conversando?
- "Eu não falo mais nada! Quando ele corta o assunto, já responde. Fala com conhecimento de tudo. E eu não entendo isso. Não entendo porque fala comigo. Se ele já sabe das coisas, porque me procura pra conversar? E o pior é que eu desconto na comida. Fico ansioso, nervoso e começo a comer mais. Fico agitado. Quero falar alguma coisa, dar um conselho. Chego a ter taquicardia. Mas ele não sabe disso! Nem sonha. Aprendi assim, com meu pai. Quando o mais velho fala, o mais novo escuta. É o respeito. Filho não tem que saber nada da vida dos pais. Tem apenas que respeitar. Mas hoje não é assim!".
- Os tempos podem ter mudado um pouco.
- "E como mudou, mudou muito! Mas pra pior. Antes havia respeito, hoje não tem nada. Ninguém respeita ninguém. É um mundo sem dono!".
"Bom, mas... Como funciona aqui? Sou eu quem começo a falar?".
- Acredito que você já esteja falando.
- "É mesmo! Pois é!" - sorri sem graça - "Mas digo, do meu filho? Sou eu quem falo dele? Pra depois você dar os conselhos?".
- Pode falar mais de você.
- "Do meu filho, né? De como ele me incomoda, né? Preciso de muita ajuda para lidar com ele e toda essa ansiedade que ele causa".
- Causa em você?
- "Sim".
- E de como você se sente 'causado' pela ansiedade!
- "Isso mesmo! Ele me deixa inquieto, ansioso, irritado. Fico fora de controle. Acho que isso não vai mudar nunca. Quero falar com ele, mas ele não deixa. No meu tempo se escutava os pais, os mais velhos. Ai de mim se levantasse a voz pro meu pai! Ai, ai... Ai de mim!".
"Mas hoje não tem nada disso. Não tem respeito, não tem nada. Cada um fala o que quer, sem consequências, sem medir palavras, que os outros não estão nem aí. É terra de ninguém! Isso mesmo! Terra de ninguém!".

***

No terceiro encontro, uma mudança surpreendente. O pai volta com uma roupa de sair, completamente descontraído. Veste uma camisa leve, bermuda e boina (dessas que senhores europeus da terceira idade usam para o frio). Também usa chinelo de couro. Uma vestimenta digna de um senhor respeitável, de avançada idade e que está em repouso.
Ele entra na sala com sorriso discreto estampado no rosto e, embora use óculos escuros, o semblante indica satisfação:
- "Achei que seria melhor voltar hoje. Tenho me sentido bem. Muito bem nos últimos dias. Cheguei até a sentir falta do senhor, acredita?" - um sorriso escapa pelo lado da boca.
"Cheguei em casa e nem me importei com meu filho. Ele que tome conta da própria vida. È bem grandinho pra isso. É velho e sabe de suas responsabilidades. Sabe bem o que tem que fazer. Ás vezes, sinto raiva dele, sabe? Toma atitudes que não deveria e não pede conselhos. Mas é um bom garoto. Sempre foi. Nunca usou drogas, estudou e sempre teve caráter".
- É a primeira vez que vejo o senhor elogiar o seu filho.
- "Minha vida começou a mudar depois que ele saiu de casa. Vi que meu casamento não ia bem depois disso. Alguma coisa se perdeu. Eu e a mãe dele não nos entendemos mais. Talvez a presença dele tenha nos feito bem todos esses dias. Mas quando ele se foi, tudo se foi junto. Estávamos sempre por perto, mas pra resolver os problemas dele, do nosso filho. Mas, depois que ele saiu...".
- O senhor sente muita falta do seu filho.
- "Falta, é isso! Tanto eu quanto a mãe dele sentimos falta! Sinto falta mesmo e não tenho vergonha de dizer. Mas sei que ele tem que seguir o próprio caminho. Eu e a mãe dele sempre tivemos problemas e hoje, sem ele em casa, as coisas se abriram, como os pontos de um parto de cesariana que estivessem estourados! Não conseguimos resolver mais os nossos problemas e precisamos das visitas regulares dele para que a casa volte a ficar em ordem".
"A mãe sempre se agarrou a ele e eu o deixei seguir. Mas hoje nenhum dos dois consegue viver bem assim".
- O senhor sempre se dirige a sua esposa como 'a mãe' de seu filho, como se ela não fosse mais nada além disso.
- "Nossa vida sempre se pautou na felicidade dele! Com dois anos de casados, quando ainda tínhamos gana de correr atrás da nossa vida, tivemos ele. Desde então, trabalhamos por ele, vivemos por ele. Tudo em função dele! Não nos esforçamos mais por nós, nem por cada um de nós".
- É uma boa hora pra isso!
- "Sim. Acho que é por isso que estou aqui".

Marcelo Horta Mariano

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O formador de opinião

Nos programas de televisão onde todos falam ao mesmo tempo. Nas discussões dos bares, em casa e/ou com os amigos. O efeito do "pra mim" que antes era questão de humildade e hoje é posicionamento e opinião posta. O falar como necessidade. Histérico e discordante do contexto. Ou até mesmo como divagação em que se 'atira' pra qualquer lado e não se mira lado algum, a não ser voltar pra si. Está aí, nestes pontos, o formador de opinião. Aquele que diz, mas não forma nada. Que cria (ou deseja criar?!) o retorno da atenção. O formador de opinião que era o exemplo, o Mestre, alguém a ser seguido, que detinha a experiência; hoje abre espaço para o qualquer um, qualquer um que deseja ser apenas o próprio interlocutor, que quer ser reconhecido como Mestre, que quer a atenção voltada para si, mesmo que nada saiba a respeito do assunto.
Nos programas de televisão isso ficou evidente. Fala-se por falar. Já houve quem dissesse que não entendia do assunto, mas, questionado, começou a acreditar que sabe. Em discussões de bares, nas casas e entre amigos, é aquele que, desentendido que é, passa pelo 'sábio'. Ou se não sabe, lê na internet, que é acessível até numa horinha de se ir ao banheiro, em meio a discussão acalorada. É aquele que, por ter ouvido falar, se posiciona, mesmo que não saiba, e tende a acreditar em seu delírio. E os efeitos do "pra mim"? Que agora sugerem posicionamento e opinião e que antes eram pontos de humildade. Ou seja, quando o Mestre falava, alguém se colocava "pra mim, eu entendo de outra forma" - dando a entender que era o Mestre quem sabia, mas havia a liberdade de expressão que era justa (talvez formasse-se aí o novo Mestre). Hoje, o "pra mim" tornou-se uma maneira de se puxar pra si o olhar, pra depois fantasiar, mesmo que temporariamente, o desejo do outro. Falar por falar como necessidade soa como ansiedade, como desespero. Como se quem não fala merecesse pouco crédito, pouco respeito. O não falante é aquele que não se posiciona, que é fraco, o burro, o que não sabe nada. E não sabe nada por que não acompanha, porque é desinformado. "Está tudo aí" - disse o pai ao filho - "se você não sabe é porque não acompanha as notícias". O assunto está aí, pra qualquer um, na internet, pra todo mundo ver. É assunto de todos. São os conhecimentos gerais.
O formador de opinião, que era o Mestre, hoje é o exigente, que exige o desejo do outro e a atenção voltada pra si. Que posta a ignorante sabedoria temporária, que nada lhe vale e que vem sem base sustentável. É o que lê na internet ou no jornal, que escuta do amigo ou na rua, que procura a informação para estar por dentro. E depois se posiciona, como o entendido, que quer a atenção, a aceitação, o seu lugar no debate, mesmo que nada saiba. É o que conta que estava lá (mesmo que em seu intimo saiba que não entende bulhufas do que estava sendo dito).
Agora... na Copa... na Copa do Mundo no Brasil... país do futebol... principalmente nos programas de televisão... tudo isso ficou muito evidente! Todo mundo sabe e ninguém sabe nada! É a fala pela fala como ponto final! Hoje, nos programas de televisão e na rua, com os amigos, o formador de opinião virou um SUCESSO!


Marcelo Horta Mariano

terça-feira, 1 de julho de 2014

Um dia histórico



Hoje é um dia histórico. Um dia histórico em Belo Horizonte, capital das Minas Gerais. É dia de Copa, com certeza. Copa do Mundo no Brasil. E não é só isso. É um dia histórico, pois em centenas de dias (talvez, milhares), o centro de BH está calmo. Por muito tempo, não vemos um dia assim, tão festivo, e que está em cumplicidade com o sentimento mineiro. Brasileiro, diria! O Brasil está em festa!!! Embora o centro esteja na mais nítida tranquilidade possível. Pode-se passear a pé, de ônibus, de MOVE (BRT-BH); pode-se passear com a família e até levar o cachorro. Quem tem compra pra fazer ou mesmo compromisso pra resolver no centro, encontrou o seu dia. O dia ideal. E depois ainda pode aproveitar os jogos de uma da tarde, de três, de sete da noite... ou de qualquer hora, que seja. Afinal, é dia de Copa! Mais um. E dia de paz, no centro. Histórico!
Hoje acordei mais cedo. Mas não para trabalhar. Para ir ao centro, resolver o que tinha que resolver. Compromissos pendentes que, em outros dias, jamais conseguiria ir. Além do mais, as pessoas estão felizes. É o Brasil na Copa do Mundo... no Brasil! Nada mais gratificante! Enfim, acordei cedo, me preparei para o pior e peguei um táxi que demorou, aproximadamente, CINCO minutos para chegar ao centro (acredite se quiser!). Precisei resolver uma pendência num órgão federal e, pra minha nova surpresa, encontrei o órgão aberto e... (pasmem)... VAZIO! Em um dia comum, podia-se esperar filas e filas para conseguir uma mísera senha de atendimento. E depois aguardar horas em pé, por não ter mais lugares para sentar, até que o bip do televisor de senhas anunciasse o numero. Mas não! Aquele dia não! HISTÓRICO! Em aproximadamente DEZ minutos consegui resolver uma situação que se arrastava por dias de indisponibilidade e de trabalho. Fui bem atendido, bem recepcionado, quase recebi um abraço da moça que, bem-humorada e com a camisa do Brasil, perguntou graciosamente em que ela podia ser útil.
Viva o Brasil Campeão!
Por volta de trinta ou quarenta minutos já estava em casa e pude, FELIZ, acompanhar os jogos da tarde.
Ficam-se as perguntas: Porque todos os dias não são dias de Copa? Porque não é assim todos os dias? Porque não acontece o mesmo no Campeonato Brasileiro?
De qualquer forma, hoje vivi UM DIA HISTÓRICO!

Marcelo Horta Mariano