- "Eu não queria
estar aqui, é verdade! É meio humilhante! Mas sei que preciso. Relutei muito, mas
chegou a hora!".
- Que bom que veio -
disse o analista.
- "É com o meu
filho, sabe? A questão é dele! A história é dele! Era ele quem precisava de
terapia, não eu! Era ele quem deveria estar aqui!".
Enquanto fala
modestamente, as mãos do pai ansioso permanecem enclausuradas, fechadas uma a
outra, como uma concha. Uma das pernas balança e a outra permanece rígida. Está
de cabeça baixa e uma gota de suor desce pela testa lisa. A camisa desbotada
indica desleixo e poucos cuidados nos últimos dias. Também indica a falta de
uma mulher que lhe dê dicas de como se cuidar melhor e se está bem vestido ou
não. A aparência é cansada, como se quisesse realmente dar um ponto final no
problema. São indicadores de ansiedade e aflição, o que coloca a questão como
algo recente e sem muitas saídas.
Acomodando-se
inquietamente na cadeira, o pai continua o relato:
- "Toda essa
história de terapia é uma bobagem! Nunca acreditei nisso. Foi meu filho que me
convenceu a vir".
- E fez bem.
- "Mais ou menos. Não
nego, mas não entendo a necessidade disso. Como vou contar uma coisa pra alguém
e de repente os meus problemas vão sumir? Meus problemas não, os do meu filho! Era
ele quem deveria estar aqui!".
- E porque 'seu filho'
deveria fazer terapia?
- "Porque ele é
ansioso e isso me prejudica!".
***
No segundo dia, o pai
se apresenta mais arrumado, com camisa de botões, colocada pra dentro da calça
jeans gasta, mas em boa ordem. Está de sapato lustrado. Não tem a mesma
ansiedade do primeiro dia, como se tivesse tido um bom dia no trabalho ou em
casa.
Atravessa a sala a
passos uniformes e sem pressa. Senta-se na cadeira como se há anos viesse ali.
Está confiante:
- "Não vi motivos
para não vir hoje. Pensei e repensei muito. Cheguei a conversar com meu filho.
Não sei se estou fazendo a coisa certa. Esta é a sensação. Tenho a impressão de
que é o meu filho que deveria estar aqui. De qualquer forma, ele não viria.
Então, resolvi vir pra falar dele. Talvez o senhor possa me dar algum
conselho".
- Fique à vontade.
- "È o meu filho.
É muito ansioso. Não conseguimos manter um bom diálogo. Aliás, não temos
diálogo algum. Sempre que venho lhe falar, ele atravessa com comentários. Quer
saber mais que eu. Sou eu quem tenho a experiência, a vivência; não ele. Eu sou
o pai dele. Isso é coisa dessa geração, com internet e essas frescuras".
- E quando ele
atravessa na conversa, o que você faz? Continua conversando?
- "Eu não falo
mais nada! Quando ele corta o assunto, já responde. Fala com conhecimento de
tudo. E eu não entendo isso. Não entendo porque fala comigo. Se ele já sabe das
coisas, porque me procura pra conversar? E o pior é que eu desconto na comida.
Fico ansioso, nervoso e começo a comer mais. Fico agitado. Quero falar alguma
coisa, dar um conselho. Chego a ter taquicardia. Mas ele não sabe disso! Nem
sonha. Aprendi assim, com meu pai. Quando o mais velho fala, o mais novo
escuta. É o respeito. Filho não tem que saber nada da vida dos pais. Tem apenas
que respeitar. Mas hoje não é assim!".
- Os tempos podem ter
mudado um pouco.
- "E como mudou,
mudou muito! Mas pra pior. Antes havia respeito, hoje não tem nada. Ninguém
respeita ninguém. É um mundo sem dono!".
"Bom, mas... Como
funciona aqui? Sou eu quem começo a falar?".
- Acredito que você já
esteja falando.
- "É mesmo! Pois
é!" - sorri sem graça - "Mas digo, do meu filho? Sou eu quem falo
dele? Pra depois você dar os conselhos?".
- Pode falar mais de
você.
- "Do meu filho,
né? De como ele me incomoda, né? Preciso de muita ajuda para lidar com ele e
toda essa ansiedade que ele causa".
- Causa em você?
- "Sim".
- E de como você se
sente 'causado' pela ansiedade!
- "Isso mesmo! Ele
me deixa inquieto, ansioso, irritado. Fico fora de controle. Acho que isso não
vai mudar nunca. Quero falar com ele, mas ele não deixa. No meu tempo se
escutava os pais, os mais velhos. Ai de mim se levantasse a voz pro meu pai!
Ai, ai... Ai de mim!".
"Mas hoje não tem
nada disso. Não tem respeito, não tem nada. Cada um fala o que quer, sem
consequências, sem medir palavras, que os outros não estão nem aí. É terra de
ninguém! Isso mesmo! Terra de ninguém!".
***
No terceiro encontro,
uma mudança surpreendente. O pai volta com uma roupa de sair, completamente
descontraído. Veste uma camisa leve, bermuda e boina (dessas que senhores
europeus da terceira idade usam para o frio). Também usa chinelo de couro. Uma
vestimenta digna de um senhor respeitável, de avançada idade e que está em
repouso.
Ele entra na sala com
sorriso discreto estampado no rosto e, embora use óculos escuros, o semblante
indica satisfação:
- "Achei que seria
melhor voltar hoje. Tenho me sentido bem. Muito bem nos últimos dias. Cheguei
até a sentir falta do senhor, acredita?" - um sorriso escapa pelo lado da
boca.
"Cheguei em casa e
nem me importei com meu filho. Ele que tome conta da própria vida. È bem
grandinho pra isso. É velho e sabe de suas responsabilidades. Sabe bem o que
tem que fazer. Ás vezes, sinto raiva dele, sabe? Toma atitudes que não deveria
e não pede conselhos. Mas é um bom garoto. Sempre foi. Nunca usou drogas,
estudou e sempre teve caráter".
- É a primeira vez que
vejo o senhor elogiar o seu filho.
- "Minha vida
começou a mudar depois que ele saiu de casa. Vi que meu casamento não ia bem
depois disso. Alguma coisa se perdeu. Eu e a mãe dele não nos entendemos mais.
Talvez a presença dele tenha nos feito bem todos esses dias. Mas quando ele se
foi, tudo se foi junto. Estávamos sempre por perto, mas pra resolver os
problemas dele, do nosso filho. Mas, depois que ele saiu...".
- O senhor sente muita
falta do seu filho.
- "Falta, é isso!
Tanto eu quanto a mãe dele sentimos falta! Sinto falta mesmo e não tenho
vergonha de dizer. Mas sei que ele tem que seguir o próprio caminho. Eu e a mãe
dele sempre tivemos problemas e hoje, sem ele em casa, as coisas se abriram,
como os pontos de um parto de cesariana que estivessem estourados! Não
conseguimos resolver mais os nossos problemas e precisamos das visitas regulares
dele para que a casa volte a ficar em ordem".
"A mãe sempre se
agarrou a ele e eu o deixei seguir. Mas hoje nenhum dos dois consegue viver bem
assim".
- O senhor sempre se
dirige a sua esposa como 'a mãe' de seu filho, como se ela não fosse mais nada
além disso.
- "Nossa vida
sempre se pautou na felicidade dele! Com dois anos de casados, quando ainda
tínhamos gana de correr atrás da nossa vida, tivemos ele. Desde então,
trabalhamos por ele, vivemos por ele. Tudo em função dele! Não nos esforçamos
mais por nós, nem por cada um de nós".
- É uma boa hora pra
isso!
- "Sim. Acho que é
por isso que estou aqui".
Marcelo
Horta Mariano