"Os olhos da minha
mãe nunca mais encontrariam os meus naquela manhã de segunda".
Segunda-feira. Recebi
um telefonema da secretária de minha mãe dizendo que ela passava mal. Entrei no
carro e saí correndo. No quarto, uma cena lamentável. O ar dos pulmões (cheios
de fumaça de outrora), não vinha mais. Sua fala era debilitada e os olhos caíam
como se estivesse adormecendo.
O desespero em mim e na
secretária tomou conta do ambiente.
Minha primeira ação foi
ligar para a ambulância do convênio médico que não pôde comparecer por questões
burocráticas. Liguei então para o SAMU e, explicando a gravidade da situação,
forneci dados atrás de dados até que o pedido fosse aprovado. Estavam a
caminho.
Tentamos (a secretária
e eu) criar meios para que ela pudesse voltar a respirar. Abrimos portas,
janelas, cortinas e colocamos a minha mãe sentada para que o ar pudesse vir
facilmente. Em vão.
Quando a ambulância
chegou com o tubo de oxigênio, nada adiantou e a respiração chegou a piorar.
Seria necessária outra ambulância com o desfibrilador. Chegou meu pai e um fio
de esperança se acendeu.
A segunda ambulância
decidiu remover o corpo ainda vivo para o hospital. Mas ao sair pela porta de
casa, seu coração parou pela primeira vez. Fora posta deitada, seminua, numa
cena deplorável e digna de dó.
Ela jurou nunca mais
voltar a um hospital e cumprira veementemente sua promessa.
Surgiram bombeiros e
mais médicos e um deles chegou a cogitar a possibilidade de descê-la pela
janela do terceiro andar. Tudo aquilo era lamentável.
Um recado de Deus?
Talvez. Um recado dela? Com certeza.
A tentativa de
ressuscitá-la com o desfibrilador e com a respiração boca a boca surtiu efeito
e minha mãe tentava fixar o olhar em meio aos berros de meu pai. Entre
equipamentos médicos, bugigangas, sofás e pessoas (os vizinhos já se aninhavam
na porta), os médicos forçavam uma nova descida pela escada.
Mas seu coração parou
pela segunda vez.
Novamente era hora de
ressuscitá-la.
Sem ter mais o que
fazer, o médico responsável decidiu que seria necessário descê-la de uma vez,
custe o que custar, pois só no hospital poderia ter o socorro necessário.
Levei-a, carregando
junto aos médicos, escada abaixo. Seus olhos agora estavam fixados em mim e eu
nada pude dizer. Um olhar triste, inconsolável.
Na rua, dentro da
ambulância, os médicos faziam de tudo, mas já era tarde demais. Desconcertado e
suado, o médico responsável, que já havia nos informado que caso ela voltasse
não mais estaria em seu juízo perfeito, declarou o seu FIM!
A terceira parada cardíaca
foi fulminante e minha mãe nunca mais retornou.
Fica lembrança,
tristeza, raiva, sentimento de incapacidade...
Mas ela não fica mais!
Nada mais importava.
Era o olhar da
despedida, do adeus, do até logo, do nunca mais...
Ou, do pedido de
socorro...
Impossível saber...
Era o fim do olhar que
não pude ver!

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