sábado, 19 de julho de 2014

CRÔNICAS DE TERAPIA: O PAI ANSIOSO


- "Eu não queria estar aqui, é verdade! É meio humilhante! Mas sei que preciso. Relutei muito, mas chegou a hora!".
- Que bom que veio - disse o analista.
- "É com o meu filho, sabe? A questão é dele! A história é dele! Era ele quem precisava de terapia, não eu! Era ele quem deveria estar aqui!".

Enquanto fala modestamente, as mãos do pai ansioso permanecem enclausuradas, fechadas uma a outra, como uma concha. Uma das pernas balança e a outra permanece rígida. Está de cabeça baixa e uma gota de suor desce pela testa lisa. A camisa desbotada indica desleixo e poucos cuidados nos últimos dias. Também indica a falta de uma mulher que lhe dê dicas de como se cuidar melhor e se está bem vestido ou não. A aparência é cansada, como se quisesse realmente dar um ponto final no problema. São indicadores de ansiedade e aflição, o que coloca a questão como algo recente e sem muitas saídas.
Acomodando-se inquietamente na cadeira, o pai continua o relato:

- "Toda essa história de terapia é uma bobagem! Nunca acreditei nisso. Foi meu filho que me convenceu a vir".
- E fez bem.
- "Mais ou menos. Não nego, mas não entendo a necessidade disso. Como vou contar uma coisa pra alguém e de repente os meus problemas vão sumir? Meus problemas não, os do meu filho! Era ele quem deveria estar aqui!".
- E porque 'seu filho' deveria fazer terapia?
- "Porque ele é ansioso e isso me prejudica!".

***

No segundo dia, o pai se apresenta mais arrumado, com camisa de botões, colocada pra dentro da calça jeans gasta, mas em boa ordem. Está de sapato lustrado. Não tem a mesma ansiedade do primeiro dia, como se tivesse tido um bom dia no trabalho ou em casa.
Atravessa a sala a passos uniformes e sem pressa. Senta-se na cadeira como se há anos viesse ali. Está confiante:

- "Não vi motivos para não vir hoje. Pensei e repensei muito. Cheguei a conversar com meu filho. Não sei se estou fazendo a coisa certa. Esta é a sensação. Tenho a impressão de que é o meu filho que deveria estar aqui. De qualquer forma, ele não viria. Então, resolvi vir pra falar dele. Talvez o senhor possa me dar algum conselho".
- Fique à vontade.
- "È o meu filho. É muito ansioso. Não conseguimos manter um bom diálogo. Aliás, não temos diálogo algum. Sempre que venho lhe falar, ele atravessa com comentários. Quer saber mais que eu. Sou eu quem tenho a experiência, a vivência; não ele. Eu sou o pai dele. Isso é coisa dessa geração, com internet e essas frescuras".
- E quando ele atravessa na conversa, o que você faz? Continua conversando?
- "Eu não falo mais nada! Quando ele corta o assunto, já responde. Fala com conhecimento de tudo. E eu não entendo isso. Não entendo porque fala comigo. Se ele já sabe das coisas, porque me procura pra conversar? E o pior é que eu desconto na comida. Fico ansioso, nervoso e começo a comer mais. Fico agitado. Quero falar alguma coisa, dar um conselho. Chego a ter taquicardia. Mas ele não sabe disso! Nem sonha. Aprendi assim, com meu pai. Quando o mais velho fala, o mais novo escuta. É o respeito. Filho não tem que saber nada da vida dos pais. Tem apenas que respeitar. Mas hoje não é assim!".
- Os tempos podem ter mudado um pouco.
- "E como mudou, mudou muito! Mas pra pior. Antes havia respeito, hoje não tem nada. Ninguém respeita ninguém. É um mundo sem dono!".
"Bom, mas... Como funciona aqui? Sou eu quem começo a falar?".
- Acredito que você já esteja falando.
- "É mesmo! Pois é!" - sorri sem graça - "Mas digo, do meu filho? Sou eu quem falo dele? Pra depois você dar os conselhos?".
- Pode falar mais de você.
- "Do meu filho, né? De como ele me incomoda, né? Preciso de muita ajuda para lidar com ele e toda essa ansiedade que ele causa".
- Causa em você?
- "Sim".
- E de como você se sente 'causado' pela ansiedade!
- "Isso mesmo! Ele me deixa inquieto, ansioso, irritado. Fico fora de controle. Acho que isso não vai mudar nunca. Quero falar com ele, mas ele não deixa. No meu tempo se escutava os pais, os mais velhos. Ai de mim se levantasse a voz pro meu pai! Ai, ai... Ai de mim!".
"Mas hoje não tem nada disso. Não tem respeito, não tem nada. Cada um fala o que quer, sem consequências, sem medir palavras, que os outros não estão nem aí. É terra de ninguém! Isso mesmo! Terra de ninguém!".

***

No terceiro encontro, uma mudança surpreendente. O pai volta com uma roupa de sair, completamente descontraído. Veste uma camisa leve, bermuda e boina (dessas que senhores europeus da terceira idade usam para o frio). Também usa chinelo de couro. Uma vestimenta digna de um senhor respeitável, de avançada idade e que está em repouso.
Ele entra na sala com sorriso discreto estampado no rosto e, embora use óculos escuros, o semblante indica satisfação:
- "Achei que seria melhor voltar hoje. Tenho me sentido bem. Muito bem nos últimos dias. Cheguei até a sentir falta do senhor, acredita?" - um sorriso escapa pelo lado da boca.
"Cheguei em casa e nem me importei com meu filho. Ele que tome conta da própria vida. È bem grandinho pra isso. É velho e sabe de suas responsabilidades. Sabe bem o que tem que fazer. Ás vezes, sinto raiva dele, sabe? Toma atitudes que não deveria e não pede conselhos. Mas é um bom garoto. Sempre foi. Nunca usou drogas, estudou e sempre teve caráter".
- É a primeira vez que vejo o senhor elogiar o seu filho.
- "Minha vida começou a mudar depois que ele saiu de casa. Vi que meu casamento não ia bem depois disso. Alguma coisa se perdeu. Eu e a mãe dele não nos entendemos mais. Talvez a presença dele tenha nos feito bem todos esses dias. Mas quando ele se foi, tudo se foi junto. Estávamos sempre por perto, mas pra resolver os problemas dele, do nosso filho. Mas, depois que ele saiu...".
- O senhor sente muita falta do seu filho.
- "Falta, é isso! Tanto eu quanto a mãe dele sentimos falta! Sinto falta mesmo e não tenho vergonha de dizer. Mas sei que ele tem que seguir o próprio caminho. Eu e a mãe dele sempre tivemos problemas e hoje, sem ele em casa, as coisas se abriram, como os pontos de um parto de cesariana que estivessem estourados! Não conseguimos resolver mais os nossos problemas e precisamos das visitas regulares dele para que a casa volte a ficar em ordem".
"A mãe sempre se agarrou a ele e eu o deixei seguir. Mas hoje nenhum dos dois consegue viver bem assim".
- O senhor sempre se dirige a sua esposa como 'a mãe' de seu filho, como se ela não fosse mais nada além disso.
- "Nossa vida sempre se pautou na felicidade dele! Com dois anos de casados, quando ainda tínhamos gana de correr atrás da nossa vida, tivemos ele. Desde então, trabalhamos por ele, vivemos por ele. Tudo em função dele! Não nos esforçamos mais por nós, nem por cada um de nós".
- É uma boa hora pra isso!
- "Sim. Acho que é por isso que estou aqui".

Marcelo Horta Mariano

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